HAHA

"Imagino que sempre se possa ter esperança."

Stephen King

"Prenda-se ao seu foco. Essa é a diferença entre uma boa pintura e apenas mais uma imagem entulhando um mundo repleto delas."

Stephen King

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Definindo território

Copacabana, bairro dos contrastes, maravilhas, surpresas.

Tem gente que não gosta, diz que tem uma absurda população, diz que nossas favelas são ferozes, assaltos, crimes, mendicância, etc.

Me diz qual o bairro deste Brasil que não tem essas coisas?

Essas coisas são características [d]o Brasil, a nação, que ainda está dando primeiros passos, aos trancos e barrancos, pra chegar a uma posição de alguma dignidade social.

E volto a Copacabana.

Andando por nossas esburacadas e fedorentas ruas, [a gente encontra = encontramos] gente de todas as tribos: punks coloridos, dreads loucos com ou sem piolho, muito gordos e muito magros, santo e pecadores, as moças da praia, as que vão à praia e as que lá trabalham, gente com pressa, outros devagar quase parando, os mansos e os furiosos sempre prontos pra uma discussão ou mesmo briga, os heteros, os gays e aqueles que a gente não consegue catalogar, animais de todos os tipos, raças ou utilidade, na coleira ou soltos (tem um cara que passeia no calçadão com uma galinha na coleira...) e assim segue a diversidade.

Esqueci de nomear a tribo dominante: os idosos. Sei que já estou mais pra lá do que pra cá, mas quando ando nas ruas de Copacabana eu me sinto muito nova ainda. Pelo menos, consigo andar em linha reta... É, é isso mesmo. Um dia, um amigo me alertou para isto: repare como andam os velhinhos, adernando pelas ruas, com passinhos parecidos com os dos patos! Me dá a sensação de jangada em mar aberto, vai pra lá, vem pra cá, vai preá lá, vem pra cá... E o mais engraçado é que eles normalmente não estão sozinhos, a maioria tem seu acompanhante. E, como caciques de suas tendas[tribos?], eles determinam o andamento.

Quando se anda em Copacabana é assim, dribla-se um velho na esquerda e muito cuidado! não esbarre no que segue à direita. Lembrem-se, nessa idade, junto com os cabelos e os dentes, perde-se também a paciência e bastante da boa educação recebida da família. Ah! É comum ver também esses respeitáveis senhores fazendo xixi na praia ou em alguma árvore que eles acham estar escondidinha. Sei que isto é desagradável, mas sempre fico imaginando se pra eles é tão ou mais desagradável ainda.

Com tudo isso, sair de casa aqui em Copacabana é aventura!

Desço a Siqueira Campos: um mar de buracos, obras, bicicletas e triciclos, cartazes e distribuidores de “santinhos”, tantos obstáculos que sempre penso em sugerir àquele sargento do batalhão do Forte para trazer seus rapazes pra treinar aqui.

Chego a Nossa Senhora de Copacabana: nossa senhora! É um mundaréu de gente!

Entro, humildemente, na fila pra atravessar a rua e vou ao banco. Desisto do caixa: são umas três mil pessoas na fila. Tento o Caixa Automática[o], que parece bem melhor. Tragédia!: o velhinho que estava em segundo lugar na fila esquece a senha, chama o funcionário (não sem antes fazer um discurso em duas partes: primeiro, sobre a memória infalível dele e sobre seu conhecimento de que não deve pedir ajuda a estranhos ,e então a segunda parte, sobre o absurdo do mundo moderno e suas máquinas). Finalmente, o funcionário resolve essa questão e sai , exausto de ouvir todas as lamentações e reclamações e discordâncias de métodos etc e tal.

Nós da fila, rejubilamos.

Mas, triste fim, a máquina parou, caiu o sistema!

Sigo meu caminho, sem lenço e sem dinheiro.

Atravesso a rua, dessa vez fora da faixa, pra aproveitar o sinal fechado. Quase sou atropelada por uma bicicleta com um dono que não a respeita porque não a considerar como[que tal sem o "como"] meio de transporte e por isso não obedece ao sinal. Chego viva do outro lado.

Entro na Lojas Americanas, um mundo de opções, tantas coisas necessárias e me junto à maioria que anda pelos corredores da loja reclamando (ai, meu deus, os preços subiram de novo! onde isso vai parar, minha gente?, e o salário que não aumenta?, tá reclamando de que, meu filho, você já comparou o seu salário com o do aposentado? viu o preço dos remédios? está tudo pela hora da morte!)

Finalmente munida de uma cestinha (imunda), pego os artigos necessários: pasta de dente, sabonete, aquele biscoitinho que está na promoção, um esmalte da última geração. Nesta hora descubro que o final da fila é a aproximadamente um 1,5km da estação das caixas. Desisto porque não tenho mais tempo.

Saio o mais depressa possível, atropelo só uma criancinha.

Na rua, atravesso de novo, desta vez na faixa e mesmo assim lá vem outra bicicleta em cima de mim.

Olho pro relógio e vejo que meu tempo acabou, tenho que voltar pra casa,

Faço a segunda parte do meu jogging com obstáculos, subindo a Siqueira Campos, ajudo uma senhora a se levantar (caiu num buraco), ajudo a um velhinho com o neto a atravessar a rua (não havia mais ninguém pra pegar o menino no colégio), subo minha ladeira.

Chego em casa, depois de 3 horas na rua, feliz apesar de nada ter dado certo pois afinal estou sã e salva e, balanço feito, não só me diverti, como extravasei minhas emoções (briguei um pouco com um cara que queria furar a fila no Banco) e , o mais importante, comprovei que ainda caminho em linha reta!!!

Apesar e por tudo isso, sem nenhum traço de ironia, eu confesso: EU AMO COPACABANA!

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